“Sempre vai ter alguém que valorize a educação” – Entrevista com Tânia Maria Ribeiro Guimarães

Publicado em 19/11/2007 por

0


por Luciana Amâncio

“As aulas são verdadeiras teleconferências, por que o professor tem capacidade de se programar e preparar muito melhor, porque ele está dando uma aula para 100 mil pessoas que, no caso, a Educon está atingindo” é a afirmação da professora, diretora e empresária Tânia Maria Ribeiro Guimarães sobre a Educação On-line. Formada pela UFBA em Ciências Biológicas e Pedagogia desde os 24 anos e sendo professora por muitos anos da UNEB no curso de Ciências Biológicas no campus de Alagoinhas, Tânia se sente hoje realizada na área educacional, que não foi o seu primeiro objetivo de vida. Aos 57 anos de idade e 39 de profissão, essa senhora expõe em uma conversa descontraída um pouco da sua história, sua vivência na educação, assim como questões importantes que estão em evidência no campo educacional.

Luciana Amâncio- O que a direcionou para a área educacional?
Tânia Maria Ribeiro Guimarães-
Na realidade meu objetivo era medicina. Daí eu decidi estudar biologia, mas para fazer isso eu teria que fazer científico, mas como a opção de família era trabalhar para depois estudar, minha mãe me obrigou, eu não tive muita opção e eu até agradeço a ela por que deu certo. Ela me obrigou a fazer pedagógico. Então eu fiz e ainda fiz um ano de CEFET, um ano de curso industrial, aí fiz vestibular pra biologia pensando na área de pesquisa e de genética, não pensei efetivamente em nenhum momento pra educação, mas as coisas se desenvolveram para área e me realizei.

LA- O Centro Educacional Sol Nascente existe há mais de 20 anos. O que a fez fundar uma escola em Cajazeiras?
TM-
Eu sempre trabalhei em regiões pobres, de periferia, como eu também fui. Quando eu vim pra Cajazeiras um dia passear nessa região não tinha nada, só mato. Vim em um dia de domingo passear do lado de cá e tinha uns dois ou três dias sonhado que eu abria uma escola, não sei por que cargas d’água. Aí quando passei por aqui eu vi exatamente o que tinha visto no meu sonho:Um local com a placa vende-se. Procurei saber de quem era e comprei o terreno. E aí me disseram: “Como vai abrir uma escola numa região dessas que não tem nada, as pessoas não valorizam a educação”. Daí eu disse: “Sempre vai ter alguém que valorize a educação”. Eu acho que a educação não é só você pensar em ganhar dinheiro, é você tentar informar, dar educação de qualidade. Aí partir para abrir a escola. Quando comecei eu tinha oito pessoas, dois filhos de um amigo meu de Pau da Lima, duas sobrinhas, meus três filhos e algumas pessoas nativas da região e depois foram chegando outras pessoas. Eu fui a primeira alfabetizadora daqui. Eu era diretora e alfabetizadora e depois de repente foi crescendo até quando o trabalho foi reconhecido.
LA- Imaginou que o Sol Nascente se tornaria uma referência de educação no bairro?
TM-
Na realidade não imaginei que chegasse a isso. Fico surpresa e ao mesmo tempo consciente do meu trabalho, a gente tem aquela coisa de que nem percebeu o quanto tem pra dar. Apesar de que quero que ela continue sendo sempre uma referência, porque acredito no jovem, acredito que a gente precisa formar líder, pois Cajazeiras precisa de líder então quem deverá se tornar líder são vocês.

LA- Qual o balanço que a senhora faz da educação no bairro desde quando aqui chegou até os dias atuais?
TM-
Eu acho que a educação no bairro cresceu, mas as pessoas, a comunidade por si só, não valoriza tanto quanto deveria. Ela sempre acha que quem está aqui não tem competência.

LA- O C.E.S.N trabalha com crianças e adolescentes com deficiência física e mental. Isso não é muito comum, pois as escolas que não são destinadas exclusivamente aos deficientes têm medo que a receptividade dos demais não seja positiva. Como se deu a idéia de incluí-los na escola?
TM-
Isso devemos a Érica (filha de Tânia e psicóloga) porque eu não consigo dar conta de tudo.Érica assume o pessoal que tem deficiência, ela dá acompanhamento.A gente tem surdo, mudo.Ela orienta as mães, faz trabalho com eles, reduz a questão da agressividade, porque os meninos querem se expressar e não conseguem, principalmente na fase do pré. Eles aprendem junto à turma sem problemas, eles passam a cuidar, abraçando e se preocupando coma aquele aluno. Têm material pra estudar, os professores são orientadas por ela, têm curso de libras (é a língua utilizada pela comunidade surda no Brasil), porque todo mundo deve se comunicar com aqueles que têm problema de audição. Encaminhamos atividades de relaxamento e relatórios quando é necessário.

LA- Como agem os demais alunos? Há algum preconceito?
TM-
Não tem preconceito de uma maneira generalizada. Até porque percebemos se tem algum tipo de preconceito.

LA- Para a senhora, os colégios públicos de Cajazeiras estão preparados para os vestibulares das universidades públicas?
TM-
As escolas têm tentado. O Edvaldo Brandão, as pessoas falam que continua sendo uma escola que busca isso. O governo tem tentado buscar isso, mas às vezes tem a falta de perspectiva de emprego que é uma das atitudes que tem barrado as escolas de evoluírem. Não que as escolas públicas não busquem o caminho certo, mas se o aluno não tem uma perspectiva, efetivamente ele diz, “o que eu vou fazer na escola?”. Precisa mostrar ao jovem que ao formar, ele tem lá na frente à perspectiva de trabalho e ele saber também que só vai ter trabalho se tiver competência. É outra coisa, sem competência você tem o trabalho, mas não vai ficar nele.

LA- E os alunos dos colégios particulares?
TM-
O alunado tem se esforçado até porque ele vê que para escola particular é mais difícil ir. Ele pode às vezes pagar uma escola de R$ 100, 150, mas não pode pagar de R$ 400, 500, 600, 800. Eu acho que eles buscam também, todos buscam fazer o melhor de si. Agora também tem o alunado, pois o direcionamento filosófico da escola é que faz buscar.

LA- A escola é afiliada a EDUCON (Educação On-line). A senhora acha que a educação computadorizada não prejudica em nada o aprendizado do aluno?
TM-
Não. Porque as aulas são verdadeiras teleconferências, por que o professor tem capacidade de se programar e preparar muito melhor, porque ele está dando uma aula para 100 mil pessoas que no caso, a Educon está atingindo. O que a gente fez de diferencial no núcleo? A gente partiu para o trabalho personalizado, ou seja, eles têm as aulas de teleconferência, mas a gente também faz trabalho com livros, eles têm biblioteca própria e apresentam esses trabalhos. A gente desenvolve a oralidade deles, socializa. Tem que socializar esses alunos para que eles possam ter um ponto de referência. As instrutoras fazem trabalhos em grupos, fazem debates. Eles apresentam, mandam projetos e fazem estágio. O que acontece com a educação à distância é que em um momento você tem que ter uma parte personalizada, para que esse aluno tenha um grupo de relação afetiva, por que educação é afetividade.

LA- A senhora era professora da UNEB (Universidade do Estado da Bahia), uma das universidades que adere às cotas. O que pensa sobre esse assunto?
TM-
O que me preocupa nas cotas é que em parte eu me sinto prejudicada. O meu alunado de escola particular é prejudicado porque ele entra em uma disputa meio diferenciada, mas cabe a esse alunado estudar cada vez mais, buscar mais competência. O aluno cotista tem aquelas questões. Muitas vezes ele vai pela cota, mas não consegue se manter por problemas, porque não é só você ter o lugar para estudar, é você ter condições de ir para aquele local.

LA- Qual a sua opinião sobre a UFBA (Universidade Federal da Bahia) retirar o vestibular e usar as notas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) como avaliação para entrar na universidade?
TM-
A UFBA sempre sai em primeiro lugar. Acho meio complicado se não houver um aumento de vagas, porque essa busca dela abrir para todo mundo, eu acho correto e aí o aluno da particular também vai ter sua chance.

LA- O Sol Nascente aparece sempre patrocinando os eventos realizados na comunidade. Fale um pouco sobre isso.
TM-
A gente faz parte dessa comunidade e toda vez que a gente participa, está ajudando, reduzindo a questão da violência, mostrando que tudo é possível desde que se queira. Todo empreendedor, toda a comunidade de Cajazeiras, o comércio, as escolas têm que buscar participar, para ter mais atividades, pois é muito gritante no bairro a falta de atividade para esses jovens. Pois se você fornece atividade, esse jovem começa a pensar diferente.

LA- Há muitos anos são realizados projetos educacionais com os alunos como: História da Arte, Feira da Bahia, que estimulam o aprendizado por ser realizado de uma forma diferenciada, sem estarem presos apenas aos livros didáticos. Quais os projetos para esse ano?
TM-
Estamos voltados para a leitura, porque temos percebido a questão de interpretação. O aluno lê, sabe responder a questão, mas aí tem dificuldade de interpretar. A leitura oral é muito importante, para saber ler, chegar a uma reunião e ler uma ata, um texto. Continuamos também com o nosso projeto de matemática do ano passado.

LA- Os projetos culturais de música e teatro que eram direcionados para a comunidade ainda funcionam?
TM-
Parou mais até porque vem muita gente de fora. A escola era muito aberta à comunidade, então a gente teve que fechar.

LA- O que acha sobre o apoio da Prefeitura para com as creches e escolas públicas de Cajazeiras?
TM-
A prefeitura devia se voltar mais para a região, pois foi uma região que deu muito voto. Fundado pelo pai do prefeito, a gente não tem o retorno necessário que deveria ter. Cajazeiras precisa procurar se organizar para eleger líderes, vereadores, um representante que busque pela comunidade.

LA- É rentável para a escola se manter no bairro?
TM-É difícil. Porque houve uma queda de poder aquisitivo muito grande. A mensalidade não é de acordo com a estrutura que a gente tem. È uma ginástica administrar, mas a gente vive aí, até pela questão do amor ao que faz, porque se buscasse só a questão de lucratividade, não iria pra frente.

(junho de 2007)

About these ads
Posted in: ENTREVISTA