Acarajé da Mina

Posted on 03/12/2007 por

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por Aricelma Araújo

“E aí, Mina, boa noite! Me dá aí um acarajé!”. É assim que os fregueses de Guilhermina Oliveira dos Santos, 42 anos, chegam para comprar um aperitivo muito conhecido no Brasil e principalmente na Bahia: o acarajé. O acarajé, um bolinho feito de feijão fradinho frito no azeite de dendê, característico do candomblé, fez de Mina uma das principais baianas de acarajé do bairro de Castelo Branco. Vendendo acarajé há mais de 20 anos no bairro, qualidades não faltam a esta baiana, que herdou de sua mãe o dom de fazer estes bolinhos tão experimentados por todos nas redondezas. Mina e seus irmãos vendem acarajé desde o falecimento da sua mãe e sobrevivem dele. 

Sendo um dos principais atrativos encontrados no tabuleiro da baiana, o acarajé surgiu ainda no período colonial, através das escravas que vendiam de porta em porta iguarias como beijus, cuscuz, bolinhos entre outros. Com trajes brancos, as mulheres enfeitavam-se com colares, pulseiras, brincos e colocavam o tabuleiro sobre a cabeça caminhando pelas ruas de Salvador.

Tombado em 5 de novembro de 2004  pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como bem imaterial, o acarajé, como afirma a vice-presidente da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau do Estado da Bahia (ABAM), Rita Maria Ventura dos Santos, 51 anos, ao longo dos anos vem se tornando um meio de sobrevivência para a população afro-descendente de Salvador.

Segundo informações concedidas pela ABAM, existem quase 5 mil baianas vendendo acarajés em tabuleiros espalhados por quase todos os cantos da cidade. As baianas costumam se instalar em pontos fixos, geralmente em lugares mais conhecidos da cidade ou então os lugares mais populares, como Itapuã, Pelourinho, Rio Vermelho, Amaralina, entre outros.

Mina contou que nasceu no bairro de Nordeste de Amaralina, e que quando tinha apenas um ano de idade, mudou-se com sua família para o bairro de Castelo Branco. Durante a conversa, ela revelou a sua história de vida. Disse que aos 15 anos, ainda na quarta-série do primeiro grau, depois de ter perdido sua mãe Elizabete Oliveira do Santos, e de seguidamente ela e seus 11 irmãos terem enfrentado o abandono do seu pai, passou a trabalhar como doméstica, até que certo dia viu no acarajé incentivo suficiente para mudar uma situação que estava lhe deixando muito triste: a falta de seus pais e a luta pela sobrevivência. Foi então que começou a vender acarajé em um lugar que atualmente é o posto de saúde do bairro.

A partir daí conseguiu ajudar sua irmã mais velha, Vandinalva dos Santos Brandão, 48 anos, a criar o restante dos irmãos. Ela disse que, apesar das dificuldades, os 12 irmãos permaneceram unidos até que cada um foi ficando independente e a partir de então ela resolveu não parar nunca mais de vender acarajé. Casou-se e teve um filho, passando assim a se sustentar através do bolinho de feijão fradinho frito no azeite de dendê. Seu ponto, atualmente, faz parte de uma área pertencente à Escola Municipal Dona Arlete Magalhães e conta que conseguiu graças à gentileza de um vereador do bairro que lutou pela liberação na Prefeitura Municipal. Sua banca está localizada atualmente na Rua A, ao lado da Cesta do Povo da Primeira Etapa do bairro.

Quando perguntada sobre seu apelido, ela respondeu muito entusiasmada: “Surgiu quando ainda eu era criança. E aí pegou. Está aí até hoje. Todos me chamam de Mina”. Enquanto conversávamos, a baiana dava uma parada daqui, outra dali para despachar a clientela. Escutei por diversas vezes: “Só um minuto, viu, deixa eu ir atender e já volto”! Sem dúvida alguma, além de ser dona de um dos melhores acarajés do bairro, Mina é muito atenciosa e educada. Durante o bate-papo, ela revelou que a maior parte dos seus irmãos sobrevive do acarajé e em seguida já foi mostrando o caminho que eu teria que percorrer mais adiante. Em seguida, disse ter mais quatro irmãos que vendem acarajé no bairro e outros parentes que sobrevivem também do acarajé.

A barraca da Mina é armada a partir das 18h, todos os dias da semana e conta com quatro ajudantes, que ela considera especiais. A sua irmã Joselita Oliveira dos Santos, 35 anos, que também é baiana de acarajé e deixou de ser por problema de coluna. Seu sobrinho, Ramon Oliveira dos Santos, 12 anos. Seu filho Tiago dos Santos Cerqueira, 13 anos, e Vanilda dos Santos Machado, 32 anos. Ao chegar à barraca antes das 20h30, o cliente não vai encontrar Mina, só mesmo a partir das 21h.

Enquanto conversávamos, o movimento era grande. Entre um bate-papo e outro, escuto: “O acarajé está passando de geração em geração”. É a voz de sua irmã Joselita. Mina fazia questão de atender a todos com muita agilidade. Quis saber como conseguia ser assim. Ela respondeu: “O tempo me ensinou pegar a prática. Já faz tanto tempo que trabalho com isso. Acabei me adaptando”. Continuamos conversando. De repente chega uma de suas clientes mais antigas, Railda Lima dos Santos, 37 anos, que declarou com orgulho por que só come o acarajé da Mina. “O acarajé é bom e tem qualidade. É feito com carinho. Outro não me serve”. E caminha saboreando o acarajé.

Acarajé da Mina - Por Aricelma Araujo

Para Mina, a época de maior venda é dezembro. Com sorriso no rosto brinca: “Nessa época o povo está cheinho de dinheiro, recebeu o décimo. Aí já viu, né”? Continuamos e ela revela que semanalmente vende mais de 500 acarajés com o valor de R$ 2 com camarão e R$ 1 sem e que a renda obtida dá para pagar todas as suas contas, água, luz, telefone, alimentação: “Consegui comprar até minha casa. O acarajé resolve meus problemas. É a minha sobrevivência”.

A baiana declarou que o horário de pico é a partir das 20h: “A partir daí o bicho pega, nega! Tá pensando que é brincadeira”?  Quanto à competição, quando perguntada, Mina respondeu: “Não. Não há por que eu tenho já os meus clientes certos. Por aqui cada qual tem seus clientes”. Quis saber do traje de baiana que ela não veste. Argumentou que o bairro não exige, pois os lugares que mais exige ficam no centro, nos lugares turísticos de Salvador. Mas afirmou já ter usado muito.

Clientes
A clientela de Mina é de todas as idades. Crianças, jovens e adultos, todos querem saborear seu acarajé. Vindos dos bairros vizinhos, como Pau da Lima, Cajazeira, Vila Canária, Águas Claras e até mesmo de bairros distantes como Itapuã, os clientes da Mina são de fato especiais, pois vem à barraca de carro, de moto, esperam na fila, querem mesmo é saborear o acarajé. Ela conta que vende acarajés para pessoas de Aracaju e São Paulo: “As pessoas vêm, compram o acarajé e levam os ingredientes separados”.

Muitos deles acompanham a história da baiana desde o início, como é o caso de Lúcia Santos da Silva, 53 anos. Com ela não precisei pedir para falar, já foi se pronunciando: “Ah, minha filha, Mina é a melhor do bairro. É a melhor baiana que já vi”. Entre um cliente e outro, descobri que existem clientes tão antigos, ainda do tempo de sua mãe e que já não podem mais freqüentar a barraca e por isso decidem mandar seus netos para efetuar a compra. A baiana faz de tudo para agradar a todos: “E aí, quer pimenta, vatapá, caruru, salada e camarão”? Continua: “A que está com pimenta está separada, viu”? E assim ela vai tratando todos do mesmo jeito.

Irmãos
Depois de já ter batido um papo com Mina, cheguei à barraca da sua irmã mais velha, Vandinalva dos Santos Brandão, 48 anos, apelidada pelos irmãos como “Arara”, por que começou a falar cedo demais. Mãe de três filhos e moradora de Vila Canária, não mede esforços para nada. É ágil como sua irmã. Com características bem próximas a de Mina, “Arara” foi atenciosa. Disse vender acarajé há mais de 28 anos e que aprendeu o ofício com a sua mãe.

Sempre trabalhando no mesmo ponto, na Praça da Feirinha, ela disse que já enfrentou muitas dificuldades. Afirmou que carregava o tabuleiro, os preparativos do acarajé em um carro-de-mão e que, depois de tanto tempo, agora conseguiu comprar um carro para fazer o transporte das coisas. Enquanto conversávamos, seu filho Lucas dos Santos Brandão, 23 anos, atendia os clientes que já estavam a fazer fila. Quanto o seu sonho, afirmou: “Me aposentar e descansar na minha casinha na ilha”. Agradeci a conversa e segui em frente, estava em busca da próxima barraca.

Caminhei em direção à sinaleira da Primeira Etapa, e ao recordar da indicação de Mina, encontrei o próximo tabuleiro. É o de Joselito Oliveira dos Santos, 37 anos, irmão de Mina que também vende acarajé há mais de 12 anos. Ele contou que depois de ter trabalhado com office-boy, auxiliar de serviços gerais e em um supermercado, descobriu que não dava muito certo trabalhar para os outros, daí ter começado a vender acarajé e não ter parado mais: “O acarajé hoje é para mim um meio de sobrevivência”, declarou.

Joselito, pai de quatro filhos, não trabalha sozinho. Além de contar com a ajuda da sua esposa, conta também com a ajuda de seus filhos. Jonatas Brandão dos Santos, 14 anos, e Jéferson Brandão dos Santos, 16 anos. Ele fala do futuro de seus filhos: “Eu não quero que o futuro dos meus filhos seja como o meu, mas se eles se formarem e não achar nada, o jeito é vender acarajé mesmo”. Declara ainda que diariamente vende mais de 70 acarajés, mas que o período de maior venda é no final de semana. Descobri que da Primeira Etapa até a Segunda do bairro de Castelo Branco, a maior parte dos tabuleiros montados são de pessoas da família de Mina.

Depois de ter conversado com Joselito, retornei à barraca de Mina, desta vez não apenas para continuar a conversa, mas sim para saborear o delicioso acarajé. Quis saber dela qual a receita para o acarajé ficar tão crocante. Rindo mais uma vez, respondeu: “Trabalho com amor, carinho e dedicação. Tudo feito com amor sempre sai perfeito”. Continuamos conversando, e quis saber se era cadastrada na Associação das Baianas de Acarajé e Mingau do Estado da Bahia (ABAM) ou se tinha a carteira de baiana de acarajé, ela respondeu que sim, há muitos anos, e disse que seu cadastro pertence a Federação do Culto Afro Brasileiro, que fica no Pelourinho, mas que precisa fazer atualização no cadastro ou então associar-se à associação. Quando perguntada sobre o fato do acarajé ter se tornado Patrimônio Nacional, respondeu: “Do acarajé ninguém enjoa. Desde quando minha vó existia, o acarajé já era tradição. Tinha mesmo é que ser reconhecido”. Entre um olhar e outro, a baiana falava: “Acarajé hoje, freguês”?

Acarajé da Mina - Por Aricelma Araújo

A baiana Mina revelou ainda que, das pessoas da sua família, quem mais vende acarajé é o seu irmão Jailton Oliveira dos Santos, 44 anos, que vende na Segunda Etapa do bairro e confessou que seu plano futuramente é colocar farda para as pessoas que trabalham com ela. Sobre a ABAM, comentou que a associação oferece regalias e que vai se cadastrar. Depois da longa conversa, me despedi e saí da barraca com uma única conclusão. Ser baiana de acarajé não é para qualquer pessoa. Mina, em todos os aspectos, mostrou ter de fato qualidades suficientes para ter se consagrado como uma verdadeira baiana de acarajé no bairro de Castelo Branco.

ABAM
Depois de ter conhecido a história da baiana Mina, resolvi ir à Associação das Baianas de Acarajé e Mingau do Estado da Bahia (ABAM), para entender ainda mais o valor que o acarajé possui na vida de muitas pessoas que o utilizam como forma de sobrevivência. A associação surgiu em 1992 e sua fundadora foi Clarice Souza dos Anjos, que até então era baiana de acarajé e devido a vontade de preservar a cultura teve essa iniciativa.

A receptividade na associação foi muito boa.  Ao chegar, fui atendida por Jeová Paiva Câmara, 61 anos, consultor da associação que logo contou qual o procedimento que a baiana tem que seguir para se cadastrar na ABAM: “A baiana em primeiro plano tem que ser atuante, em seguida fazer o documento na SESP (Secretaria Municipal de Serviços Públicos), e depois procurar a associação munida de todos os documentos para então se associar”. Contou ainda que a taxa de inscrição é de R$ 45 e a manutenção é mensalmente com um valor de R$ 5.

Durante a conversa, percebi que muitas pessoas chegavam para conhecer a associação. Gente de todos os lugares e de todas as faixas etárias, inclusive alunos de rede pública e particular. Na associação, o visitante além de ser acompanhado por um guia para conhecer a história das baianas, pode ainda comprar artesanatos da cultura da baiana e do acarajé na Bahia. Jeová revelou que a associação busca recursos na iniciativa privada e nos órgãos governamentais, como Bahiatursa, Emtursa, Secretaria de Turismo. Disse ainda contar com a SEBRAE, SENAC para conseguir benefício como tabuleiros, sombreiros e cursos de aperfeiçoamento para as baianas cadastradas.

Enquanto conversávamos, mesmo o espaço sendo pequeno, atendia aos poucos os visitantes que chegavam. O consultor disse ainda que o espaço da associação foi cedido pela prefeitura, que essa foi a maior contribuição que conseguiu. Entre uma conversa e outra, chega a vice-presidente da associação, Rita Maria Ventura dos Santos, 51 anos, que também foi gentil em falar das regalias que a baiana passa a ter quando cadastrada na associação: “As baianas têm conta aberta nos bancos que são nossos parceiros (Banco do Brasil, Caixa Econômica e Bradesco). Damos declaração de rendimentos para abrirem créditos na praça. As baianas têm seus processos acelerados na SESP e por fim ganham descontos em plano de saúde”.

Muita gente boa e educada, Rita fez questão de falar sobre seu futuro projeto: “Quero conseguir juntamente com o governo federal o reconhecimento da profissão baiana de acarajé. Gostaria que fosse regularizada”. Declarou ainda que, de mais de 5 mil baianas existentes em Salvador, apenas 2700 baianas são cadastradas na associação.

Depois do bate-papo, agradeci e logo avistei, mais uma vez, uma quantidade de pessoas curiosas do lado de fora da associação. Esperavam ansiosos a saída dos visitantes que estavam conhecendo de maneira bem tranqüila a história das baianas,  a história daquelas  responsáveis por fazer os bolinhos de feijão fradinho fritos no azeite de dendê.

(outubro de 2007)

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